quinta-feira, 25 de outubro de 2012



Casas Familiares Rurais: uma alternativa de desenvolvimento para o campo



                                                                                                      Texto de Ricardo Palaro
                                                                                                                       Disponível em: http://www.redesrurais.org.br/sites/default/files/A%20proposta%20pedag%C3%B3gica%20das%20Casas%20Familiares%20Rurais%20para%20promover%20o%20desenvolvimento%20rural%20no%20Brasil.pdf

O Movimento das Casas Familiares Rurais nasceu em 1935, a partir da iniciativa de três agricultores e de um padre de um pequeno vilarejo da França que, de um lado, “prestaram atenção na provocação de um adolescente de quatorze anos que rejeitava a escola na qual tinha sido matriculado e, de outro, estavam atentos a seu meio, que queriam promover e desenvolver” (GIMONET, 1999, p. 40). Assim, a proposta de ensino e formação não estaria separada da realidade do momento, mas “estreitamente associada a ela e se inscreviam num movimento, numa dinâmica de conjunto” (GIMONET, 1999, p. 41). Desta forma, o ensino para os adolescentes “tinha um sentido e podia se transformar em aprendizagens” (GIMONET, 1999, p. 41).
Essa primeira experiência com a Pedagogia da Alternância que aconteceu na França em 1935 com a denominada Maison Familiale Rurale (MFR) surgiu em virtude de alguns fatores que vinham ocorrendo, “como o abandono dos camponeses no campo, o êxodo rural, a crescente urbanização e o profundo desenvolvimento do capitalismo” (NASCIMENTO, 2009, p. 160), assim, os filhos dos camponeses tinham apenas duas opções, “a primeira era abrir mão dos estudos e continuar trabalhando no campo e a segunda deixar o campo e ir estudar na escola pública da cidade” (NASCIMENTO, 2009, p.166). Os camponeses temiam que deixando seus filhos estudassem na cidade, estes renegariam suas raízes e abandonariam o campo. Deste modo, iniciaram então movimentos junto a “sindicatos e a igreja buscando uma alternativa viável para o problema que estavam enfrentando. Assim, aconteceu a primeira experiência onde os jovens ficavam reunidos uma semana em local apropriado (casa paroquial) e três semanas na propriedade familiar” (NASCIMENTO, 2009, p. 167).
No Brasil, a primeira experiência surgiu no estado do Espírito Santo, especificamente no município de Anchieta em 1969 mediado pelo padre Humberto Pietogrande através de um intercâmbio Brasil – Itália. Já em 1968 através da Fundação do Movimento Educacional e Promocional do Espírito Santo (MEPES) surgiu a primeira Escola Família Rural (NASCIMENTO, 2009, p. 167). Segundo Teixeira, Bernartt, & Trindade, no Brasil as experiências mais conhecidas da Pedagogia da Alternância são as desenvolvidas pelas EFAs (Escolas Família Agrícola) e CFR (Casa Familiar Rural). Os pesquisadores que estudam estas escolas utilizam a terminologia Centros Familiares de Formação por Alternância (CEFFA).
A pedagogia adotada pelos CEFFA é a Pedagogia da Alternância, que segundo Gimonet (2007, p.16) “a formação por alternância dos CEFFAs obedece a um processo que parte da experiência da vida quotidiana para ir em direção à teoria, aos saberes dos programas acadêmicos, para, em seguida, voltar à experiência, e assim sucessivamente”.
Na Pedagogia da Alternância todos colaboram para a elaboração das atividades, dos instrumentos, das organizações didáticas, dos princípios e métodos próprios das CFRs. Elabora-se então uma “pedagogia da partilha”. De acordo com Gimonet (2007), quatro são as finalidades da pedagogia da alternância: 1) orientação; 2) adaptação ao emprego (suprir a inadequação entre formação e emprego); 3) qualificação profissional (construir uma identidade profissional duradoura); 4) formação geral (permitir o mesmo acesso ao prosseguimento dos estudos através do ensino tradicional).
As principais características das CFR são: a responsabilidade das famílias na gestão de uma associação de pais e alunos; a alternância dos períodos entre o meio de vida socioprofissional e a Casa Familiar onde o educando exerce na prática uma concepção dialética de formação; a vida dos educandos em pequenos grupos e em internatos; uma equipe de formadores denominados monitores, e uma pedagogia adaptada que se chama Pedagogia da Alternância (NASCIMENTO, 2009, p. 168).
Na Pedagogia da Alternância “os pais são chamados a participar de toda vida da escola, desde o acompanhamento integral dos filhos quando estão junto à família até na administração, coordenação e manutenção da escola” (NASCIMENTO, 2009, p. 168).

REFERÊNCIAS

GIMONET, Jean-Claude. Nascimento e Desenvolvimento de um Movimento Educativo: As Casas Familiares Rurais de Educação e Orientação. In: Seminário Internacional Sobre Pedagogia da Alternância. Pedagogia da Alternância. Alternância e Desenvolvimento. Salvador, BA: SIMFR/VITAE/UNEFAB. 1999. p.39-48.
___. Praticar e compreender a pedagogia da alternância dos CEFFAs. Petópolis, RJ: Vozes, Paris: AIMFR – Associação Internacional dos Movimentos Familiares e de Formação Rural, 2007.
NASCIMENTO, C. G. Gestão democrática e participativa na pedagogia da alternância: a experiência da Escola Família Agrícola (EFA) de Goiás. Salvador, n.15, p. 163-178, jan./jul. 2009.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012



ANTECEDENTES HISTÓRICOS NA EDUCAÇÃO RURAL DO BRASIL
“A educação destinada aos trabalhadores rurais sempre foi motivo de muita discussão e controvérsia. As políticas educacionais criadas pelos governos colocavam a oferta de educação de uma forma geral. Desde o Brasil Colônia, a educação foi pensada e ofertada somente aos filhos da elite, que eram instruídos para dar continuidade ao projeto de perpetuação da desigualdade social entre ricos e pobres. Os pobres, em sua grande maioria indígena, escravos negros e camponeses, tinham a catequização dos jesuítas como consolo, já que precisavam ser instruídos na fé católica e na obediência à Coroa de Portugal.
A catequização não significava letramento, alfabetização, mas o aprendizado mínimo das regras de conduta da Igreja, que serviam de legitimação para as práticas de escravidão e exploração dos portugueses. Dessa forma, (...) as propostas dos jesuítas e dos portugueses se interligavam criando uma tríplice necessidade que não poderia dicotomizar-se, a saber: colonização, educação e catequese deveriam caminhar articuladas para um mesmo objetivo, que era levar a fé católica como salvação das almas e ampliar a exploração realizada pelos portugueses.
Portanto, aos trabalhadores do campo era destinada a enxada e a foice para que pudessem cumprir bem seu ofício, o que determinava a perpetuação do poder aos senhores de engenho e, posteriormente, aos coronéis das fazendas de café. De certa forma, desde 1550, quando realmente se iniciou o processo de catequização dos jesuítas, até os anos 70 e 80 do século XX, ou seja, durante mais de 400 anos de história, os camponeses foram relegados ao descaso. Enquanto na cidade os trabalhadores se organizavam na busca de seus direitos de cidadania, no campo os trabalhadores rurais continuavam sem organização e, em muitos lugares, eram expulsos de suas terras devido à ampliação do latifúndio, principalmente com o crescimento da pecuária.
Em algumas ocasiões na história do Brasil, os camponeses foram sinônimos de resistência ao modelo imposto. São considerados os primeiros movimentos sociais do campo devido às bandeiras de luta que estavam clamando. São eles: Contestado, no Paraná e Santa Catarina, Canudos, na Bahia, o Cangaço, no Nordeste Brasileiro e, por fim, as Ligas Camponesas, que deram origem à Revolta de Trombas e Formoso em Goiás”.
                                                                     Claudemiro Godoy do Nascimento*

* Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Goiás (1999). Graduado em Teologia pelo Instituto de Teologia Santa Úrsula (2005). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2005).
Doutorando em Educação pela Universidade de Brasília. Professor da Universidade Federal do Tocantins.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA
Um vídeo simples que explica maravilhosamente a história dessa modalidadehttp://youtu.be/WXdsI5fuCiE

quarta-feira, 19 de setembro de 2012




Lugar de mulher...

Segundo estudos sobre mulheres, um grande número delas confirma já  ter  sido vítima,  em  algum momento de  sua  vida, de alguma forma de violência física como exemplo,  ameaças com armas, agressões , violência psíquica,  assédio sexual, etc.
Esses dados assinalam a precisão em contestarmos de maneira mais arraigada, as discussões de gênero e sexualidade principalmente na escola. É na escola que estamos tentando formar cidadãos dignos, aptos a não apanhar e principalmente não bater. É na escola que estamos tentando formar pessoas que deverão ter respeito ao próximo independente de etnia, religião sexo... É na escola que devemos aprender que ser diferente deve ser normal. 
Vivemos em uma sociedade que exclui racialmente e mascara-se pela lenda do democratismo racial. Necessitamos da implementação de políticas sociais realmente inclusivas, uma vez que se verifica que hoje em dia, em diversos setores da sociedade, a mulher ainda é estereotipada de maneira negativa. Modelo disso são os múltiplos papéis determinados socialmente como o de que lugar da mulher é na cozinha, lugar de negra é na minha cozinha... A distinção de gênero e raça é edificada de acordo com diferentes padrões de hierarquização da mulher. A mulher sofre duas vezes a discriminação, principalmente por ser negra pobre e principalmente mulher.
Carecemos apreender porque razão algumas classes estão mais sujeitas ao trabalho pesado, recebendo salários menores com escolaridade baixa. Na maioria das vezes os chamados movimentos sociais são um meio mais eficaz de combate a esse tipo de abuso. Deve-se entender esses movimentos como um fenômeno de transformação da sociedade. Eles nascem como via de fortalecimento de certos grupos que se encontram à margem na sociedade. Ou seja, as mulheres continuam à margem do mercado e quando entram no mercado de trabalho, as mulheres o fazem em desvantagem em relação aos homens, por causa das considerações de gênero que condicionam a divisão sexual do trabalho.
Entendemos que a partir dos anos 80 os movimentos sociais lutaram pela conquista de direitos civis e políticos e atualmente é inegável a importância das ações afirmativas, recentemente propostas a fim de estimular a discussão sobre o preconceito, nunca francamente afrontado pela sociedade brasileira.

terça-feira, 18 de setembro de 2012


A Balaiada e a história de Negro Cosme




Há um tempo atrás ajudei uma amiga a fazer uma pesquisa sobre a Balaiada no Maranhão, especificamente sobre a atuação do Negro Cosme no movimento e  confesso que me apaixonei pelo tema. 
No julgamento do movimento revolucionário dos balaios, os historiadores foram unanimes em classificar os sertanejos maranhenses como uma simples horda de bandoleiros que ergueram suas armas para roubar e assassinar (SERRA, 2008).
Munanga (2005) é brilhante ao afirmar que o preconceito infiltrado na cabeça do professor e sua inépcia em lidar profissionalmente com a diversidade que somando ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às relações preconceituosas entre alunos de diferentes ascendências étnico-raciais, sociais e outras desanimam o aluno e atrasam o seu aprendizado.
Diante de explicações decerto verificadas e pouco aceitáveis, entende-se o porquê de um número tão considerável de alunos simplesmente desconhecerem a figura de Negro Cosme na Balaiada. Ora, se nem o livro didático o cita, muito menos o professor sempre está habilitado para tanto, como este personagem pode entrar para a história do Maranhão como referência positiva?
O Negro Cosme foi o último grande líder da Balaiada a ser vencido. Muitos tiveram o direito à anistia, eram considerados inimigos políticos. Cosme foi julgado como inimigo social. Claro, nunca uma sociedade escravista deixaria de punir exemplarmente um negro subversivo. Nunca se reconheceria que um negro fosse capaz de possuir intuições políticas, sociais e mesmo educacionais (SOUSA, 2010).
Durante o século XIX, historiadores procuraram explicar o nascimento do Estado nacional brasileiro, atribuindo às instituições do novo país independente um caráter constitucional e os movimentos contestatórios, entre eles a Balaiada, foi julgada como anomalia, manifestação da barbárie contra a civilização, representada pela ordem monárquica. Surgiram então versões diferentes da revolta balaia, ricas em detalhes e nuances. Entrando pelo século XX historiadores compreenderam que a Balaiada representou a ascensão de brasileiros ao poder provincial e nacional, a consolidação do poder do coronelismo e o pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense, acentuando mais ainda a marginalização social dos destituídos, principalmente dos negros (JANOTTI, 2005).
Dono de uma impressionante biografia, que o elevou ao panteão dos mitos, Dom Cosme Bento das Chagas, o defensor da liberdade, virou vilão, à luz da bibliografia oficial, por conta de sua heróica participação na Balaiada que, mesmo sem um comando central, infligiu fragorosas derrotas contra o poder constituído, ocupando importantes cidades como Caxias, Humberto de Campos e Icatu, esta última próxima a São Luís (FILHO, 2008).
A História do Maranhão foi construída também sob o prisma da resistência à escravidão. Esses ativistas que se opuseram a escravidão e, sobretudo abriram as primeiras passagens para um mundo igualitário devem ser reconhecidos e exaltados como exemplo.
Negro Cosme é sem sombra de dúvidas uma das personalidades mais debatidas dessa História. Sempre fazendo uso da união entre seus comandados a fim de libertar mais escravos que ainda permaneciam sob a tutela dos fazendeiros.
Aos alunos cabe o conhecimento dos fatos históricos despidos de preconceito e falso heroísmo, para posteriormente manifestar democraticamente seu posicionamento.
Principalmente quando os alunos desconhecem fatos importantes como o citado por Carlota Carvalho (2000) que questiona a atuação de Duque de Caxias no Maranhão, para esta autora o herói em questão enxergava para os rebeldes maranhenses as penas mais cruéis, pois estes eram homens fora das leis. Enquanto que no Rio Grande do Sul durante a Farroupilha aqueles rebeldes eram tratados como brasileiros, e a eles foi pedido o esquecimento das desavenças para um abraço fraternal. 
Enquanto professora de geografia em escola pública de São Luís-Ma  percebo que o nível de conhecimento dos alunos das Escolas Públicas Estaduais de São Luís do Maranhão sobre a atuação do Negro Cosme no movimento da Balaiada infelizmente ainda deixa muito a desejar, apesar de ter notado melhorias tímidas. Possivelmente essa transformação de fato só ocorra através do uso de um livro didático que retrate a verdadeira história, não aquela contada pelas elites que oprimiu personagens que batalharam pela liberdade e pela dignidade do brasileiro.
As Escolas Estaduais do Estado do Maranhão precisam se aparelhar através do estabelecimento de projetos pedagógicos a fim de apreciar a história local em especial a do Preto Cosme como um homem que lutou por seus ideais de liberdade e por isso não pode ficar relegado ao esquecimento. Nossos alunos afrodescendentes ou não carecem de ações étnicorraciais de caráter prático.
Nós professores e professoras de escolas Estaduais do Maranhão, observamos uma pequena tentativa de mudança, algumas escolas já estão tentando novas metodologias para trabalhar a história local. Através do uso de textos dirigidos, palestras com militantes de movimentos negros e projetos pedagógicos objetivando excluir as desigualdades sociais no âmbito escolar.
Dessa forma pode-se entender que para os educandos a sua História é importante na medida em que explica o surgimento das desigualdades étnicas e sociais do Brasil, principalmente no Maranhão. Somente através do conhecimento histórico, de suas raízes, esses sujeitos estarão aptos a viver em uma sociedade igualitária.


 REFERÊNCIAS

FILHO, Aniceto Cantanhede. In: Negro Cosme e a Guerra da Balaiada no Maranhão. CCN, São Luís, 2009.

FILHO, P. M. As implicações de Mundinha Araújo. Viana, 2008. Disp em http://www.aldeiamaracu.org.br/busca.pdf. Acessado em 23 nov. de 2010.

JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Balaiada: construção da memória Histórica. História, São Paulo, v.24, N.1, p.41-76, 2005.

MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília: Mec: 2005. 
SERRA, Astolfo. A Balaiada. São Luís, MA: Instituto Géia, 2008.

SILVA, C. da. Definições de metodologias para seleção de pessoas negras em programas de ação afirmativa em educação. In: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras. São Paulo: Sammus, 2003.

SOUSA, Lucimar Carvalho. Os Pasquins em São Luís: na primeira metade do século XIX. Monografia apresentada ao Programa Pós-Graduação Lato Sensu em História do Maranhão, da Universidade Estadual do Maranhão, 2006.