A Balaiada e a história de Negro Cosme
Há um tempo atrás ajudei uma amiga a fazer uma pesquisa sobre a Balaiada no Maranhão, especificamente sobre a atuação do Negro Cosme no movimento e confesso que me apaixonei pelo tema.
No julgamento do movimento revolucionário dos balaios, os historiadores foram unanimes em classificar os sertanejos maranhenses como uma simples horda de bandoleiros que ergueram suas armas para roubar e assassinar (SERRA, 2008).
No julgamento do movimento revolucionário dos balaios, os historiadores foram unanimes em classificar os sertanejos maranhenses como uma simples horda de bandoleiros que ergueram suas armas para roubar e assassinar (SERRA, 2008).
Munanga (2005) é brilhante ao afirmar que o preconceito infiltrado na cabeça
do professor e sua inépcia em lidar profissionalmente com a diversidade que
somando ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às
relações preconceituosas entre alunos de diferentes ascendências
étnico-raciais, sociais e outras desanimam o aluno e atrasam o
seu aprendizado.
Diante de explicações decerto verificadas e pouco aceitáveis,
entende-se o porquê de um número tão considerável de alunos simplesmente
desconhecerem a figura de Negro Cosme na Balaiada. Ora, se nem o livro didático
o cita, muito menos o professor sempre está habilitado para tanto, como este
personagem pode entrar para a história do Maranhão como referência positiva?
O Negro Cosme foi o último grande líder da Balaiada a ser vencido.
Muitos tiveram o direito à anistia, eram considerados inimigos políticos.
Cosme foi julgado como inimigo social. Claro, nunca uma sociedade escravista
deixaria de punir exemplarmente um negro subversivo. Nunca se reconheceria que
um negro fosse capaz de possuir intuições políticas, sociais e mesmo
educacionais (SOUSA, 2010).
Durante
o século XIX, historiadores procuraram explicar o nascimento do Estado nacional
brasileiro, atribuindo às instituições do novo país independente um caráter
constitucional e os movimentos contestatórios, entre eles a Balaiada, foi
julgada como anomalia, manifestação da barbárie contra a civilização,
representada pela ordem monárquica. Surgiram então versões diferentes da
revolta balaia, ricas em detalhes e nuances. Entrando pelo século XX
historiadores compreenderam que a Balaiada representou a ascensão de
brasileiros ao poder provincial e nacional, a consolidação do poder do
coronelismo e o pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense,
acentuando mais ainda a marginalização social dos destituídos, principalmente
dos negros (JANOTTI, 2005).
Dono
de uma impressionante biografia, que o elevou ao panteão dos mitos, Dom Cosme
Bento das Chagas, o defensor da liberdade, virou vilão, à luz da bibliografia
oficial, por conta de sua heróica participação na Balaiada que, mesmo sem um
comando central, infligiu fragorosas derrotas contra o poder constituído,
ocupando importantes cidades como Caxias, Humberto de Campos e Icatu, esta
última próxima a São Luís (FILHO, 2008).
A História do
Maranhão foi construída também sob o prisma da resistência à escravidão. Esses
ativistas que se opuseram a escravidão e, sobretudo abriram as primeiras
passagens para um mundo igualitário devem ser reconhecidos e exaltados como
exemplo.
Negro Cosme é sem sombra de dúvidas uma das personalidades mais debatidas
dessa História. Sempre fazendo uso da união entre seus comandados a fim de
libertar mais escravos que ainda permaneciam sob a tutela dos fazendeiros.
Aos alunos cabe o conhecimento dos fatos históricos
despidos de preconceito e falso heroísmo, para posteriormente manifestar
democraticamente seu posicionamento.
Principalmente quando os alunos desconhecem fatos
importantes como
o citado por Carlota Carvalho (2000) que questiona a atuação de Duque de Caxias no
Maranhão, para esta autora o herói em questão enxergava para os rebeldes maranhenses as penas mais cruéis,
pois estes eram homens fora das leis. Enquanto que no Rio Grande do Sul
durante a Farroupilha aqueles rebeldes eram tratados
como brasileiros, e a eles foi pedido o esquecimento das desavenças para um
abraço fraternal.
Enquanto professora de geografia em escola
pública de São Luís-Ma percebo que o nível de conhecimento dos
alunos das Escolas Públicas Estaduais de São Luís do Maranhão sobre a atuação
do Negro Cosme no movimento da Balaiada infelizmente ainda deixa muito a
desejar, apesar de ter notado melhorias tímidas. Possivelmente essa transformação
de fato só ocorra através do uso de um livro didático que retrate a verdadeira
história, não aquela contada pelas elites que oprimiu personagens que batalharam pela liberdade e pela dignidade do
brasileiro.
As Escolas Estaduais do Estado do Maranhão precisam se aparelhar através do estabelecimento
de projetos pedagógicos a fim de apreciar a história local em especial a do
Preto Cosme como um homem que lutou por seus ideais de liberdade e por isso não
pode ficar relegado ao esquecimento. Nossos alunos afrodescendentes ou não
carecem de ações étnicorraciais de caráter prático.
Nós professores
e professoras de escolas Estaduais do Maranhão, observamos uma pequena tentativa
de mudança, algumas escolas já estão tentando novas metodologias para trabalhar
a história local. Através do uso de textos dirigidos, palestras com militantes
de movimentos negros e projetos pedagógicos objetivando excluir as desigualdades sociais no
âmbito escolar.
Dessa forma
pode-se entender que para os educandos a sua História é importante na medida em
que explica o surgimento das desigualdades étnicas e sociais do Brasil,
principalmente no Maranhão. Somente através do conhecimento histórico, de suas
raízes, esses sujeitos estarão aptos a viver em uma sociedade igualitária.
REFERÊNCIAS
FILHO, Aniceto Cantanhede. In: Negro Cosme e a Guerra da Balaiada no Maranhão. CCN, São Luís,
2009.
FILHO, P. M. As implicações
de Mundinha Araújo. Viana, 2008. Disp em http://www.aldeiamaracu.org.br/busca.pdf. Acessado em 23 nov. de 2010.
JANOTTI,
Maria de Lourdes Mônaco. Balaiada:
construção da memória Histórica.
História, São Paulo, v.24, N.1, p.41-76, 2005.
MUNANGA, Kabengele. Superando
o racismo na escola. Brasília: Mec: 2005.
SERRA, Astolfo. A Balaiada. São Luís, MA: Instituto Géia,
2008.
SILVA, C. da. Definições de metodologias para seleção de pessoas
negras em programas de ação afirmativa em educação. In: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras. São
Paulo: Sammus, 2003.
SOUSA,
Lucimar Carvalho. Os Pasquins em São Luís: na primeira metade do século
XIX. Monografia apresentada ao Programa Pós-Graduação Lato Sensu em
História do Maranhão, da Universidade Estadual do Maranhão, 2006.
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