terça-feira, 18 de setembro de 2012


A Balaiada e a história de Negro Cosme




Há um tempo atrás ajudei uma amiga a fazer uma pesquisa sobre a Balaiada no Maranhão, especificamente sobre a atuação do Negro Cosme no movimento e  confesso que me apaixonei pelo tema. 
No julgamento do movimento revolucionário dos balaios, os historiadores foram unanimes em classificar os sertanejos maranhenses como uma simples horda de bandoleiros que ergueram suas armas para roubar e assassinar (SERRA, 2008).
Munanga (2005) é brilhante ao afirmar que o preconceito infiltrado na cabeça do professor e sua inépcia em lidar profissionalmente com a diversidade que somando ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às relações preconceituosas entre alunos de diferentes ascendências étnico-raciais, sociais e outras desanimam o aluno e atrasam o seu aprendizado.
Diante de explicações decerto verificadas e pouco aceitáveis, entende-se o porquê de um número tão considerável de alunos simplesmente desconhecerem a figura de Negro Cosme na Balaiada. Ora, se nem o livro didático o cita, muito menos o professor sempre está habilitado para tanto, como este personagem pode entrar para a história do Maranhão como referência positiva?
O Negro Cosme foi o último grande líder da Balaiada a ser vencido. Muitos tiveram o direito à anistia, eram considerados inimigos políticos. Cosme foi julgado como inimigo social. Claro, nunca uma sociedade escravista deixaria de punir exemplarmente um negro subversivo. Nunca se reconheceria que um negro fosse capaz de possuir intuições políticas, sociais e mesmo educacionais (SOUSA, 2010).
Durante o século XIX, historiadores procuraram explicar o nascimento do Estado nacional brasileiro, atribuindo às instituições do novo país independente um caráter constitucional e os movimentos contestatórios, entre eles a Balaiada, foi julgada como anomalia, manifestação da barbárie contra a civilização, representada pela ordem monárquica. Surgiram então versões diferentes da revolta balaia, ricas em detalhes e nuances. Entrando pelo século XX historiadores compreenderam que a Balaiada representou a ascensão de brasileiros ao poder provincial e nacional, a consolidação do poder do coronelismo e o pacto de dominação entre os partidos da elite maranhense, acentuando mais ainda a marginalização social dos destituídos, principalmente dos negros (JANOTTI, 2005).
Dono de uma impressionante biografia, que o elevou ao panteão dos mitos, Dom Cosme Bento das Chagas, o defensor da liberdade, virou vilão, à luz da bibliografia oficial, por conta de sua heróica participação na Balaiada que, mesmo sem um comando central, infligiu fragorosas derrotas contra o poder constituído, ocupando importantes cidades como Caxias, Humberto de Campos e Icatu, esta última próxima a São Luís (FILHO, 2008).
A História do Maranhão foi construída também sob o prisma da resistência à escravidão. Esses ativistas que se opuseram a escravidão e, sobretudo abriram as primeiras passagens para um mundo igualitário devem ser reconhecidos e exaltados como exemplo.
Negro Cosme é sem sombra de dúvidas uma das personalidades mais debatidas dessa História. Sempre fazendo uso da união entre seus comandados a fim de libertar mais escravos que ainda permaneciam sob a tutela dos fazendeiros.
Aos alunos cabe o conhecimento dos fatos históricos despidos de preconceito e falso heroísmo, para posteriormente manifestar democraticamente seu posicionamento.
Principalmente quando os alunos desconhecem fatos importantes como o citado por Carlota Carvalho (2000) que questiona a atuação de Duque de Caxias no Maranhão, para esta autora o herói em questão enxergava para os rebeldes maranhenses as penas mais cruéis, pois estes eram homens fora das leis. Enquanto que no Rio Grande do Sul durante a Farroupilha aqueles rebeldes eram tratados como brasileiros, e a eles foi pedido o esquecimento das desavenças para um abraço fraternal. 
Enquanto professora de geografia em escola pública de São Luís-Ma  percebo que o nível de conhecimento dos alunos das Escolas Públicas Estaduais de São Luís do Maranhão sobre a atuação do Negro Cosme no movimento da Balaiada infelizmente ainda deixa muito a desejar, apesar de ter notado melhorias tímidas. Possivelmente essa transformação de fato só ocorra através do uso de um livro didático que retrate a verdadeira história, não aquela contada pelas elites que oprimiu personagens que batalharam pela liberdade e pela dignidade do brasileiro.
As Escolas Estaduais do Estado do Maranhão precisam se aparelhar através do estabelecimento de projetos pedagógicos a fim de apreciar a história local em especial a do Preto Cosme como um homem que lutou por seus ideais de liberdade e por isso não pode ficar relegado ao esquecimento. Nossos alunos afrodescendentes ou não carecem de ações étnicorraciais de caráter prático.
Nós professores e professoras de escolas Estaduais do Maranhão, observamos uma pequena tentativa de mudança, algumas escolas já estão tentando novas metodologias para trabalhar a história local. Através do uso de textos dirigidos, palestras com militantes de movimentos negros e projetos pedagógicos objetivando excluir as desigualdades sociais no âmbito escolar.
Dessa forma pode-se entender que para os educandos a sua História é importante na medida em que explica o surgimento das desigualdades étnicas e sociais do Brasil, principalmente no Maranhão. Somente através do conhecimento histórico, de suas raízes, esses sujeitos estarão aptos a viver em uma sociedade igualitária.


 REFERÊNCIAS

FILHO, Aniceto Cantanhede. In: Negro Cosme e a Guerra da Balaiada no Maranhão. CCN, São Luís, 2009.

FILHO, P. M. As implicações de Mundinha Araújo. Viana, 2008. Disp em http://www.aldeiamaracu.org.br/busca.pdf. Acessado em 23 nov. de 2010.

JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Balaiada: construção da memória Histórica. História, São Paulo, v.24, N.1, p.41-76, 2005.

MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na escola. Brasília: Mec: 2005. 
SERRA, Astolfo. A Balaiada. São Luís, MA: Instituto Géia, 2008.

SILVA, C. da. Definições de metodologias para seleção de pessoas negras em programas de ação afirmativa em educação. In: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras. São Paulo: Sammus, 2003.

SOUSA, Lucimar Carvalho. Os Pasquins em São Luís: na primeira metade do século XIX. Monografia apresentada ao Programa Pós-Graduação Lato Sensu em História do Maranhão, da Universidade Estadual do Maranhão, 2006.

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