Texto de Ricardo Palaro
O Movimento das Casas Familiares Rurais nasceu em 1935, a partir da iniciativa de três agricultores e de um padre de um pequeno vilarejo da França que, de um lado, “prestaram atenção na provocação de um adolescente de quatorze anos que rejeitava a escola na qual tinha sido matriculado e, de outro, estavam atentos a seu meio, que queriam promover e desenvolver” (GIMONET, 1999, p. 40). Assim, a proposta de ensino e formação não estaria separada da realidade do momento, mas “estreitamente associada a ela e se inscreviam num movimento, numa dinâmica de conjunto” (GIMONET, 1999, p. 41). Desta forma, o ensino para os adolescentes “tinha um sentido e podia se transformar em aprendizagens” (GIMONET, 1999, p. 41).
Essa primeira experiência com a Pedagogia da Alternância que aconteceu na França em 1935 com a denominada Maison Familiale Rurale (MFR) surgiu em virtude de alguns fatores que vinham ocorrendo, “como o abandono dos camponeses no campo, o êxodo rural, a crescente urbanização e o profundo desenvolvimento do capitalismo” (NASCIMENTO, 2009, p. 160), assim, os filhos dos camponeses tinham apenas duas opções, “a primeira era abrir mão dos estudos e continuar trabalhando no campo e a segunda deixar o campo e ir estudar na escola pública da cidade” (NASCIMENTO, 2009, p.166). Os camponeses temiam que deixando seus filhos estudassem na cidade, estes renegariam suas raízes e abandonariam o campo. Deste modo, iniciaram então movimentos junto a “sindicatos e a igreja buscando uma alternativa viável para o problema que estavam enfrentando. Assim, aconteceu a primeira experiência onde os jovens ficavam reunidos uma semana em local apropriado (casa paroquial) e três semanas na propriedade familiar” (NASCIMENTO, 2009, p. 167).
No Brasil, a primeira experiência surgiu no estado do Espírito Santo, especificamente no município de Anchieta em 1969 mediado pelo padre Humberto Pietogrande através de um intercâmbio Brasil – Itália. Já em 1968 através da Fundação do Movimento Educacional e Promocional do Espírito Santo (MEPES) surgiu a primeira Escola Família Rural (NASCIMENTO, 2009, p. 167). Segundo Teixeira, Bernartt, & Trindade, no Brasil as experiências mais conhecidas da Pedagogia da Alternância são as desenvolvidas pelas EFAs (Escolas Família Agrícola) e CFR (Casa Familiar Rural). Os pesquisadores que estudam estas escolas utilizam a terminologia Centros Familiares de Formação por Alternância (CEFFA).
A pedagogia adotada pelos CEFFA é a Pedagogia da Alternância, que segundo Gimonet (2007, p.16) “a formação por alternância dos CEFFAs obedece a um processo que parte da experiência da vida quotidiana para ir em direção à teoria, aos saberes dos programas acadêmicos, para, em seguida, voltar à experiência, e assim sucessivamente”.
Na Pedagogia da Alternância todos colaboram para a elaboração das atividades, dos instrumentos, das organizações didáticas, dos princípios e métodos próprios das CFRs. Elabora-se então uma “pedagogia da partilha”. De acordo com Gimonet (2007), quatro são as finalidades da pedagogia da alternância: 1) orientação; 2) adaptação ao emprego (suprir a inadequação entre formação e emprego); 3) qualificação profissional (construir uma identidade profissional duradoura); 4) formação geral (permitir o mesmo acesso ao prosseguimento dos estudos através do ensino tradicional).
As principais características das CFR são: a responsabilidade das famílias na gestão de uma associação de pais e alunos; a alternância dos períodos entre o meio de vida socioprofissional e a Casa Familiar onde o educando exerce na prática uma concepção dialética de formação; a vida dos educandos em pequenos grupos e em internatos; uma equipe de formadores denominados monitores, e uma pedagogia adaptada que se chama Pedagogia da Alternância (NASCIMENTO, 2009, p. 168).
Na Pedagogia da Alternância “os pais são chamados a participar de toda vida da escola, desde o acompanhamento integral dos filhos quando estão junto à família até na administração, coordenação e manutenção da escola” (NASCIMENTO, 2009, p. 168).
REFERÊNCIAS
GIMONET, Jean-Claude. Nascimento e Desenvolvimento de um Movimento Educativo: As Casas Familiares Rurais de Educação e Orientação. In: Seminário Internacional Sobre Pedagogia da Alternância. Pedagogia da Alternância. Alternância e Desenvolvimento. Salvador, BA: SIMFR/VITAE/UNEFAB. 1999. p.39-48.
___. Praticar e compreender a pedagogia da alternância dos CEFFAs. Petópolis, RJ: Vozes, Paris: AIMFR – Associação Internacional dos Movimentos Familiares e de Formação Rural, 2007.
NASCIMENTO, C. G. Gestão democrática e participativa na pedagogia da alternância: a experiência da Escola Família Agrícola (EFA) de Goiás. Salvador, n.15, p. 163-178, jan./jul. 2009.
